A festa de Remondes.

Nos tempos da minha juventude, a festa era algo de maravilhoso para todos, a vida era muito difícil e guardávamos tudo para esse dia, era o dia melhor do ano.

Quando jogávamos o fite, era sempre e uma garrafinha de licor, que uma doceira de Vale da Madre, vinha vender a nossa terra, e os miúdos éramos os seus maiores fregueses, o licor era feito de café e aguardente e água e muitas vezes deixava os muidos bebados…

Era o grande dia, logo pela manhã chegava a banda de música, ecoando pela aldeia, os foguetes que subiam no firmamento se ouvindo em todo o lado, e a alegria de todos principalmente dos mais jovens, que corriam, para ver qual apanhava mais cana. Que tempos senhor Manuel Pichorro? Era uma figura típica da aldeia, mexia com todos os miúdos e se misturava com eles, disputando o privilégio de apanhar as canas. O altifalante se sentia de toda a parte, e para os miúdos não era só festa, tinham que ir com os animais para o campo, porque eles também tinham que comer. A vida era difícil, meu amigo, hoje os miúdos não sabem o que era a vida de seus avôs, mesmo assim valia muito, a gente era feliz porque se contentava com pouco, havia mesmo quem não tivesse esse pouco.

Para os mais jovens tinha ainda a partida de futebol, que era uma das maiores atracões, e sempre bem disputada, com rivalidade ainda maior que um Sporting, Benfica, sempre terminava em polémica, e muitas vezes a pancada, porque ninguém queria perder, era mau de mais ser derrotado em casa, o desportivismo terminava porque a rivalidade era maior.

Havia também algo que sempre sucedia, as zaragatas, eram brigas que não podiam faltar, poucas festas terminavam sem que houvesse que contar, deixavam as querelas para as resolver nesse dia, havia famílias que quase sempre armavam alguma, eram  já conhecidas como as zaragateiras, todos sabem quem eram.

Que saudades eu tenho desses tempos, a gente vivia com pouco, mas era feliz, o quotidiano era sempre o mesmo, escola, ajudar no campo, brincar, havia jogos que nunca esquecerei, como o esconde, esconde, o gato e o rato, fito, a relha, e o jogo do ferro, e muitos mais fazíamos ginástica com isso, sem o saber.

Sei quando começou a fazer-se a festa, em Honra de São Marcos, dia 16 de Outubro de 1893, mas ao certo não sei quando terminou, por terem optado pela Santa Sinforosa, penso que foi depois de 1970, eu não me encontrava aqui na aldeia.

 

Por vezes o São Pedro não ajudava e já fazia frio e a chuva vinha ainda a complicar mais

Hoje a festa se realiza em honra de Santa Sinforosa, mas não foi sempre assim, como prova o documento que segue, em que era dada autorização para realizar a festa em honra de são Marcos, pelo arcipreste de Mogadouro, que pediu ao Senhor Bispo.

Por esta, por mim mandada passar, consignada, concede licença aos devotos, de S. Marcos, da freguesia de Remondes, para por esta somente poderem celebrar, no dia 16 do corrente mês, de Outubro a festividade que entendam, com procissão do Sagrado Santíssimo Sacramento, devendo esta ter lugar, num altar firme, e ornado, com o suficiente numero de luzes de cera branca, e observar-se na solenidade a ordem e compostura e respeito, que a acto de tal natura são devidas.

                             Dada em Remondes ao 19 de Abril de 1893

Eu, Joaquim Maria Felgueiras Leite Velho, Secretário do arciprestado a escrevi.

Francisco António Gonçalves, arcipreste de Mogadouro

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

one × five =